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    Viana do Castelo
    “No coração de cada ateu há um crente escondido”

    3 anos ago · · Comentários fechados em “No coração de cada ateu há um crente escondido”

    “No coração de cada ateu há um crente escondido”

    O padre e teólogo checo Tomás Halík esteve em Braga a participar nas Jornadas Teológicas organizadas pela Revista “Cenáculo” e pela Associação de Estudantes da Faculdade de Teologia. Horas antes da sua conferência, o “Igreja Viva” e o Instituto Católico de Viana do Castelo estiveram à conversa sobre os grandes temas da sua reflexão teológica.

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    Povo português identifica-se muito com manifestações devocionais como as procissões, imagens peregrinas, santuários, milagres. Porém, muitas vezes os crentes ignoram não só os conteúdos da fé cristã, mas até as “formas” cristãs de oração. Como se pode ajudar as pessoas a caminhar para uma fé mais esclarecida, mais adulta?

    Eu não tenho muita experiência com este tipo de religiosidade popular porque cresci numa família secularizada e converti-me do humanismo secularizado através da leitura de livros religiosos, de teologia, estética, etc. e através de encontros com alguns padres que passaram muitos anos na prisão, durante o regime comunista. Mas no nosso país temos regiões muito diferenciadas no que diz respeito à religião.

    O problema da religiosidade tradicional no nosso país é que as pessoas não conseguem transmiti-la à nova geração porque a biosfera sócio-cultural dessa religiosidade era a aldeia tradicional pré-moderna que está a desaparecer com o processo de modernização e urbanização.

    Existe, hoje, um fosso geracional porque os jovens vivem no mundo das redes sociais e da internet e não acolhem a herança religiosa dos pais. Mas este pode ser também um momento para a conversão, a partir da religião tradicional, para uma fé pessoal.

    Quando se torna evidente a fragilidade da religiosidade tradicional?

    O grande confronto ocorre através dos problemas da vida. Por isso a religiosidade tradicional não é capaz de responder às questões levantadas por uma sociedade pluralista. Trata-se do desafio de ensinar a pensar correctamente.

    É absolutamente necessário ter conselheiros espirituais que possam dar apoio e coragem à tarefa de pensar a religião. Não há motivo para ter medo de perguntas difíceis, não devemos ter medo desta nova cultura. Precisamos de descobrir as nossas raízes profundas no Evangelho. Por isso, creio que é necessário reflectir sobre o Evangelho, voltar ao Evangelho, mas também discutir sobre o mundo contemporâneo. É bom ser confrontado com gente que pensa diferente. É importante o estudo da doutrina da Igreja, mas ainda mais importante é ter uma profunda espiritualidade pessoal. Não só recitar as antigas orações, mas também estudar, meditar, ter uma experiência pessoal de vida espiritual.

    Portugal é conhecido pela sua ligação ao luto, ao sofrimento, à saudade… É possível anunciar a salvação sem sublinhar tanto estas dimensões?

    Para mim é muito estranha essa acentuação da tristeza e da dor. Gostaria de a perceber melhor. Creio que teria que viver cá por um tempo (risos), ou estudar mais a literatura e a história portuguesas, porque acho que a espiritualidade e a religiosidade pessoal têm as suas raízes na história, na experiência pessoal, na cultura, e o Evangelho surge sempre encarnado num “milieu” cultural específico. Não acredito num optimismo superficial, no “sorriso” cristão; é claro que a alegria é algo substancial para os cristãos, o “Euangelion” é a boa notícia. Para mim, o humor é sempre sinal de uma espiritualidade saudável. Enquanto consultor do Pontifício Conselho para o Diálogo com os não-crentes, lembro-me de uma semana em Roma com bispos e teólogos de todo o mundo. Ao meu lado sentou-se um teólogo indiano que me interpelou: “Olha para este bispo! Estamos aqui há quatro dias e nunca sorriu”. Eu respondilhe:

    “É uma pessoa perigosa!” (risos). Ele acrescentou: “Tenho uma sensibilidade relativamente às pessoas. Se alguém vive relaxado, se é uma pessoa de humor, sei que tem uma espiritualidade profunda e saudável”.

    Mas, a sensibilidade para a “dimensão trágica da vida” é também importante e deveria fazer parte da nossa fé, ainda que sendo apenas uma parte.

    Johann-Baptist Metz, teólogo alemão, afirmou que “se proclamamos o evangelho da Ressurreição e não há sinal do grito do Crucificado, então é só mitologia e não teologia cristã”. Ora, precisamente esta “Sexta-feira Santa”, esta experiência do “Deus silencioso” é típica de muitos não-crentes. Costumo dizer-lhes que é uma parte [importante] da nossa fé, uma parte da história cristã: a Sexta-feira Santa, o sofrimento, a dimensão trágica! Sem isto, seria superficial.Mas esta não é a última palavra.

    Qual seria então a última palavra?

    Quando se atravessa esta “noite escura” nasce uma nova alegria, mais profunda. O século XX foi, em certo sentido, uma “noite escura da alma” colectiva. Muitas pessoas perderam a sua fé, entre elas teólogos e capelães na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

    Depois perceberam que não podemos proclamar o Deus todo-poderoso e bom sem levar a sério a experiência das pessoas na guerra, na qual foram confrontados com o sofrimento, a tragédia, o lado negro da vida. Trata-se, pois, de uma provocação, um desafio para ir maisfundo e descobrir Deus, que não é apenas um “regisseur”, um director cinematográfico, mas encontra-se na profundidade, que é Ele mesmo a profundidade da vida!

    O P. Halík defende que a diferença hoje não reside na distinção entre os crentes e os não-crentes, mas entre os que “habitam” e os que andam à procura. Mas talvez exista uma terceira categoria: pessoas que nem crêem nem procuram coisa alguma. Nesse caso, como estabelecemos um diálogo?

    Sim, de facto, hoje há também o “apateísmo”, ou seja, não só os “ateus” mas os “ap-ateus”, isto é, pessoas que são apáticas em relação à religião. É mais difícil comunicar com os “apateus” do que com os “ateus” militantes. Por vezes penso que no coração e na mente de cada crente há um não-crente, assim como também no coração decada ateu há um crente escondido.

    De igual modo, os ateus militantes não estão completamente felizes com o seu ateísmo e têm dúvidas sobre as suas dúvidas.

    E há também essas pessoas que não estão interessadas nestes problemas. Mas cada pessoa tem algo que é sagrado para ela, e nós devemos perguntar-lhes o que é mais sagrado. Às vezes questiono-lhes: “Certo, tu não acreditas em Deus, mas que aparência tem esse deus em que tu não acreditas? Porque, ao menos, uma certa imagem de Deus deves ter”. Então, quando me contam algo sobre esse deus, eu digo: “Graças a Deus que tu não acreditas num deus assim! Eu também não acredito!”. Às vezes, as pessoas têm uma imagem muito primitiva, uma estúpida caricatura de Deus. E, por isso, dizem: “este deus não existe”. E eu concordo, esse deus verdadeiramente não existe, graças a Deus!

    Há pessoas que dizem “eu não acredito em Deus, mas sei que existe alguma coisa acima de todos nós”… Sim, costumo dizer que esta “alguma coisa” é a religião mais professada no meu país! Podemos comunicar com este tipo de crença?

    A verdade é que cada ser humano é, ao mesmo tempo, crente e não-crente. Assim como Lutero afirmava que somos “simul justus et peccator”, eu penso que somos todos “simul fidelis et infidelis”. Há pessoas que, de noite, nas suas orações, procuram e pensam em Deus, mas Deus não ocupa nenhum espaço no seu estilo de vida. E, por outro lado, há pessoas que durante o dia são muito religiosas mas, à noite, sofrem com dúvidas e com o sentimento trágico.

    Esta mistura de crente e não-crente é muito comum no homem moderno. A pluralidade está dentro de nós, não devemos ter medo disso. Precisamos de conselheiros espirituais que nos ajudem através do diálogo, que não sejam apenas líderes, mas que saibam acompanharas pessoas.

    Portanto, os padres são hoje chamados a ser, sobretudo, acompanhantes espirituais.

    Sim, creio que esta será uma grande missão para a Igreja no futuro: acompanhar aqueles que estão à procura, estes “buscadores”. É claro que haverá sempre gente que será fiel e irá regularmente à Igreja, graças a Deus; e têm todo o direito a serem servidos pelos padres.

    Mas penso que não é suficiente que os padres sejam treinados apenas para servir estas pessoas tradicionais que se identificam completamente com a Igreja. É claro que permanece a missão “clássica”, mas eu estou a falar de uma “terceira via”: trata-se de acompanhar os “buscadores”, não apenas introduzi-los nas nossas “estruturas”, mas abrir as nossas estruturas internas para esta nova experiência destes “buscadores”, porque eles são também um dom de Deus para nós.

    Talvez seja uma leitura simplista, mas poderíamos dizer que o Papa Bento XVI preferiu uma abordagem mais doutrinal para a evangelização enquanto o Papa Francisco opta por uma abordagem mais existencial. Qual é o caminho mais adequado no nosso contexto?

    Acredito mesmo que o Espírito Santo trabalha na Igreja e que cada pessoa é escolhida para o momento justo. João Paulo II – que conheci bem – foi um grande Papa e teve grande impacto na nossa história, especialmente no nosso lado da Europa. Comunicou de forma carismática com milhões de pessoas. Depois veio o Papa Bento XVI, um intelectual introvertido.

    Era engraçado vê-lo a tentar reproduzir os mesmos gestos de João Paulo II, mas com uma tal timidez que parecia estar a dizer “por favor, não me toques!” (risos). Talvez fosse muito cauteloso pelo facto de ter sido prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas penso que após a sua eleição ficou mais aberto.

    O que considera mais significativo no seu pensamento?

    Pensemos no “pátio dos gentios”. Sobre isto, o discurso mais importante de Bento XVI foi proferido aos jornalistas durante o seu voo até Portugal. Nele defendeu a compatibilidade entre o humanismo secular e a fé católica; disse que não estão em conflito e que precisam um do outro, e que esta é uma característica da cultura europeia.

    E o Papa Francisco?

    O Papa Francisco tem o carisma da proximidade das pessoas e está a fazer descobrir de novo o Evangelho. É uma combinação muito interessante de dois carismas da Igreja Católica, o franciscano e o jesuíta. Tem a coragem enérgica e sistemática dos jesuítas, a vontade de mudar as coisas e de ir aos sítios mais perigosos. Mas conjuga, ao mesmo tempo, o carisma de Francisco: estar próximo das pessoas, dos pobres e entender as situações complicadas. Penso que a sua última exortação sobre o amor no matrimónio é um documento revolucionário.

    Há um novo espírito! Não há mudanças na lei ou na doutrina, mas antes uma mudança de espírito e de linguagem. E a linguagem é importante: a linguagem do coração que fala ao coração – “cor ad cor loquitur”. Jesus veio pelos pecadores. Gosto muito quando o Papa diz que, para imitar hoje o Bom Pastor, temos de deixar sozinha a única ovelha para ir à procura das noventa e nove perdidas (risos).

    Estou profundamente convencido que o Papa Francisco deu início a um novo capítulo na história do Cristianismo. Há um novo espírito que toca os corações de muitas pessoas, mesmo aquelas que estão para além da Igreja, do cristianismo, especialmente da Igreja Católica. Os meus amigos protestantes dizem: “eu já não sou protestante. Já não tenho nada a protestar!” Aceitam-no totalmente. (risos).

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