Eu concordo com Termos & Condições e eu li
e concordo Política de Privacidade.

Contacte-nos

Para dúvidas, sugestões, solicitações, por favor preencha o formulário e em breve atenderemos à sua questão.

Telefone:
258 823 263

Enviar email:
geral@icvc.pt

Anacletus, vivas in Deo

1 mês ago · · Comentários fechados em Anacletus, vivas in Deo

Anacletus, vivas in Deo

Há certas notícias que, por serem tão imprevistas e tristes, nos deixam num estado de torpor. Racionalmente percebemos o que está a acontecer, mas a ressonância afectiva dos factos, tarda a manifestar-se. Só hoje, pela manhã, ao celebrar a Eucaristia, sofri esse embate interior com a realidade. 

Na cidade onde me encontro, ao celebrar a Eucaristia o nome do bispo depende do lugar onde estou: se estou na paróquia, é Alan; se é na capelania universitária, o bispo é outro de nome John. Mas hoje celebrava privadamente e, quando é assim, digo o nome de todos. E rezei pelo Papa, Francisco; pelo bispo da cidade, Alan; pelo bispo dos universitários, John; pelo meu bispo Anacl… e falhou-me a voz e vieram-me as lágrimas aos olhos.

Não pretendo passar a imagem de uma proximidade ou intimidade especial que, na verdade, não tinha com o D. Anacleto. Além disso sou avesso aos elogios fúnebres, que pretendem embelezar todo e cada aspecto da vida dos que partiram. Nos últimos tempos, para dizer a verdade, a nossa percepção das opções pastorais e dos procedimentos governativos era muito diferente e isso não era desconhecido a nenhum de nós. Aliás, houve momentos de desconforto muito grandes no último ano. Mas isso coloca tudo num enquadramento ainda mais amplo que não quero obviar. 

Semana de Estudos Teológicos de 2017

Bispo D. Anacleto com Maria Rueff

1. O Apostolado que une os presbíteros e bispos

Por uma feliz Deus-cidência, a paróquia que servia em 2010 tinha acabado de ler e meditar o livro “Um Ano com São Paulo”, escrito por D. Anacleto. Após larga consulta popular, o conselho pastoral decidiu pedir ao Bispo Diocesano para que São Paulo fosse declarado Padroeiro da comunidade junto com São Pedro. E, nesse ínterim, foi nomeado D. Anacleto como Bispo de Viana do Castelo.

A atmosfera de expectativa foi enorme. A sua preciosa homilia (penso que terá sido a única que verdadeiramente escreveu antes de pronunciar durante os seus dez anos na nossa diocese), terminou com o salmo 131: uma prece de serenidade e, ao mesmo tempo, de um certo alheamento face às contingências passageiras e envolventes que sempre caracterizou o seu ministério pastoral entre nós. A entusiasta efervescência de alguns presbíteros era surpreendente. Ainda conservo os emails que alguns enviavam em longas listas de destinatários com a “exegese” que faziam das suas palavras, do seu currículo, etc. Os tais elogios que mudam com o tempo. Na época não se usava o Facebook, Messenger e o Whatsapp como agora. Mas a imprudente estultícia era a mesma.

Jantar ao sabor da Bíblia em 2018

Bispo D. Anacleto em convívio

Nesse contexto, ocorreu a minha primeira audiência formal com o D. Anacleto. Após uma reunião com a equipa do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil ao qual presidia na altura, decidimos apresentar a demissão por intuir que não haveria condições após a JMJ-Madrid 2011 para dar continuidade ao projecto formativo que pretendíamos iniciar e não fazia sentido sermos organizadores de grandes eventos. Fui dar conta, em primeiro lugar, ao meu bispo e só depois à CEP. À entrada, o D. Anacleto saudou-me com um “Ah, rapaz! Então, és tu o dos jovens”. Foi talvez uma das mais bonitas definições do meu ministério que alguma vez ouvi. Obviamente falámos de muitas coisas e, por fim, respondeu com um cortante: “até fico contente por ficares mais disponível. Nós, padres, temos é de estar disponíveis e trabalhar, independentemente das simpatias pessoais”. Esse foi um grande ensinamento que o meu falecido pároco, Pe. José Arieiro, e o D. Anacleto me deixaram: não são as simpatias ou antipatias pessoais (não somos um clube de futebol nem uma associação de amigos) que devem imperar no nosso serviço a Deus. Posso não gostar de alguém, mas se é pelo Evangelho, engulo e ando para a frente. Quantas vezes vi isso no D. Anacleto.

Semana de estudos teológicos de 2016

Conversas e respostas.

2. Prioridade à Palavra de Deus

O D. Anacleto escrevia muito bem. As suas Cartas Pastorais são uma prova disso e é pena que a sua tese de doutoramento nunca tenha sido traduzida e publicada em português.  Mas as suas Cartas, convenhamos, não eram propriamente pastorais. Eram bíblico-doutrinais. Ou melhor, era por serem bíblico-doutrinais que eram pastorais. É a “forma mentis” que se esconde nelas que nos revela o que para ele era muito claro: tudo parte da Palavra de Deus, transmitida na Sagrada Escritura. Por esse mesmo motivo, quis reformar e reescrever, talvez com excesso de zelo, o volumoso guia do 4º ano de Catequese. Dizia ele “para que, pelo menos os catequistas, se o lerem tenham uma boa introdução à Bíblia”.

Durante uma certa fase teve a impressão que a divulgação das suas Cartas não era suficiente pelas centenas de exemplares impressos que ficavam em arquivo. Decidiu, então, confiar a edição e divulgação das mesmas ao Instituto Católico. Com um acerto dos exemplares e uma estratégia mais assertiva, a sua última Carta esgotou totalmente e creio que acontecerá o mesmo com a próxima, já por ele escrita e corrigida, que se encontra na tipografia, e que constitui a sua última palavra de pastor. Como não podia deixar de ser, dedicada aos jovens. Que bonito testamento!

Certamente a pregação era uma das acções pastorais que lhe dava mais prazer. Tanto no Ambão como nas visitas pastorais, com as crianças e jovens, com os quais de bom grado trocava o solidéu para se fotografar nas selfies que por estes dias estão a inundar a conta de instagram daqueles que ele crismou… Acho que nunca assisti a uma homilia demorada. Talvez nas visitas pastorais se repetisse um pouco com a simbologia do perfume. Mas como gostava de dizer, “para estes jovens, é a única vez que vão ouvir falar disto”. Com os futuros padres gostava de ler e reflectir não só o novo Directório para a Vida e Ministério dos Presbíteros, mas os números da Evangelii Gaudium sobre a homilia.

Mas não era só com finalidade pastoral que ele se vergava sobre a Bíblia. Nalguns dos encontros que tivemos, partilhava as suas leituras exegéticas, trocávamos sugestões bibliográficas e, recentemente, andava empolgado com o texto dos salmos e o comentário de Erich Zenger, que fora seu professor em Münster. O projecto da nova tradução da Bíblia ocupava o seu pensamento e o seu coração e estava deliciado de poder estudar profundamente a Carta aos Romanos. Lia a Palavra porque sim, porque quem ama gosta de estar junto d’Aquele que ama.

Semana de Estudos Teológicos de 2019

Bispo D. Anacleto junto do comunidade cristã

3. Fruto maduro

D. Anacleto não escondia o seu cansaço humano e espiritual à frente da diocese. Creio que esta condição é transversal aos seus irmãos no episcopado. Muitas vezes manifestava a sua ansiedade por ver a hora da resignação para regressar à sua terra natal e a uma vida mais contemplativa, em contacto com a natureza e com a Palavra. Quando penso nalgumas das suas expressões e reacções, mesmo recentemente por ocasião das Bodas de Ouro, não posso deixar de cultivar a impressão de uma personalidade rica e complexa. D. Anacleto era um misto de amenidade pastoral e austeridade pessoal. Quando se encontrava no meio do povo, era alegre, festeiro e brincalhão. Gostava de uma multidão nas Eucaristias. Em privado, gostava do silêncio e fugia a manifestações exageradas.

Creio que o D. Anacleto estava maduro para o céu. Já não alimentava projectos “pessoais” em termos pastorais. A distância e reserva a que a pandemia o obrigou (num primeiro momento, foi dos que desacreditava num possível confinamento) fizeram-no concentrar-se ainda mais numa ânsia de oração e ruminação da Palavra. Não estava mesmo nada preso ao ministério episcopal e à diocese. Acho que, nesse sentido, manteve-se sempre livre.

Semana de estudos teológicos de 2016

Olhar da câmara!

4. Um nome paradigmático

Quando D. Anacleto foi nomeado, o Vigário Geral da Diocese, Mons. Sebastião Ferreira, dizia que o seu nome lhe lembrava os tempos apostólicos e o terceiro papa que aparece no Cânone Romano sob o nome de “Cleto”. Cleto é uma contracção do verbo Kaleo, significa “chamado” ou “escolhido”. “Ana” é um prefixo grego que significa “novo”. Para ele, chegou a hora do chamamento definitivo.

Há pouco mais de um mês, na homilia das suas Bodas de Ouro, recordava a oração e a intercessão da sua mãe por ele, antes e depois da morte. Agora, já no abraço dos santos, chegou a sua vez de interceder por nós. E tal como os primeiros cristãos escreveram no túmulo do terceiro sucessor de Pedro, a nós toca-nos dizer agora: Vivas in Deo!

P. Pablo Lima

Categories: Institucional

Instituto Catolico

Instituto Catolico

Vivamus ullamcorper pretium ipsum, id molestie elit dapibus vitae. Vestibulum ut odio id sem ultrices convallis vel id diam.